Entre um voo e outro com Willians Mischur: Capadócia por terra

Se sobrevoar a Capadócia do alto de um balão é algo surreal, o passeio por terra é tão incrível quanto. Reservei a mesma data do voo para fazer um tour histórico pelo local. No entanto, como acordamos bem cedo naquele dia (lá pelas 3h), o sono nos atingiu em cheio e parte da família optou por permanecer no hotel. Eu, Willians Mischur, minha filha e meu filho mais velho seguimos com o passeio marcado às 10h.

Enquanto o voo de balão nos oferece um panorama completo lá do alto, é no chão que conseguimos captar os verdadeiros detalhes. Ainda mais quando o tour é acompanhado por um guia da região, que nos revelou com muita propriedade a história local. Agora, prepare-se: você vai andar. Muito. Confesso que exigiu determinação para não desistir cedo em uma dessas longas caminhadas e perder as maravilhas de locais que são Patrimônio Mundial da Unesco.

A Capadócia é um lugar em que a natureza é peculiar e os seres humanos tornaram as coisas ainda mais peculiares. A erosão moldou a incrível paisagem do vale de Göreme, na Turquia, mas há milhares de anos as pessoas começaram a esculpir um incrível complexo de câmaras e túneis nas rochas macias – chamadas tufo. Tanto que, ao longo dos séculos, a paisagem da Capadócia foi transformada em um gigante queijo suíço e, consequentemente, camadas da história foram perdidas no processo.

Acredita-se que as cavernas estavam sendo escavadas e usadas pelo Império hitita por volta de 1.800 a.C. a 1.200 a.C., embora grande parte do labirinto de trogloditas da região (habitantes das cavernas) possa ser fixada nos últimos séculos do período bizantino (397-1071).

Apesar de estar no centro da Turquia moderna, a Capadócia não é particularmente turca: eles só chegaram ali no século XI. Ou seja, a Turquia nem existia até o século XX. Até que a população em larga escala trocar a Grécia pela região na década de 1920 – o que, por sua vez, explica porque muitos dos complexos escavados nas rochas não são mesquitas, mas mosteiros.

O mais imponente de todos é o Museu a Céu Aberto de Göreme – uma relíquia visualmente impressionante repleta de capelas, igrejas, cozinhas e refeitórios centenários. Logo na entrada é possível ver uma espécie de cone gigante que já foi um dormitório de cinco andares para freiras. Os interiores são ainda mais impactantes que os exteriores.

Em algumas capelas, as pinturas estão notavelmente bem preservadas. São “seccos” e não “affrescos” (pintados em gesso seco e não molhado), todos com detalhes fascinantes. Na Igreja das Cobras, São Jorge – que era da Capadócia – e São Teodoro são retratados matando um dragão. Na Igreja Negra, uma única janela ilumina o local.

CIDADES SUBTERRÂNEAS E CAVERNAS – Se não era possível escavar para cima, os bizantinos cavavam – o que originou uma rede de cidades subterrâneas. Apenas 10-15% de Derinkuyu está acessível aos visitantes hoje em dia, mas dá uma ideia do labirinto que era. O sistema é similar ao que permeia o castelo Uçhisar, apesar de seguir na direção oposta. Ou seja, as salas maiores ficam mais próximas do nível do solo, mas se tornam apertadas conforme você avança.

Eu, Willians Mischur, achei fascinante. Contudo, é preciso alertar que quem for claustrofóbico não vai gostar muito da cidade subterrânea de Derinkuyu. Os túneis que conectam os níveis são pequenos e estreitos, o que faz com que os visitantes até andem curvados. Essas redes subterrâneas foram projetadas para autodefesa e não para o conforto – já que a região sofreu ataques constantes de invasores árabes entre os séculos V e X. Por isso, diversos obstáculos existem ali.

A propósito, as antigas aldeias eram construídas em torno de um local central de refúgio – seja uma cidade subterrânea ou um terreno alto para facilitar a defesa. Com o tempo e o fim das invasões, as casas das cavernas nas colinas foram abandonadas em prol das novas cidades. Hoje, você pode encontrar aldeias fantasmas – como Cavusin, com sua encosta de casas em ruínas.

Em outros lugares, algumas dessas casas das cavernas receberam uma nova vida. Em Ürgüp, as antigas cavernas na colina Esbelli foram renovadas. Algumas abrigam aqueles que decidiram experimentar a vida rural e outras foram convertidas em pequenas pousadas e hotéis voltados para visitantes que preferem ficam em lugares distintos: quartos com paredes vulcânicas, de pedras cortadas das rochas, que dividem espaço com móveis e um design moderno.

Nós tivemos a oportunidade de vivenciar um pouco dessa atmosfera no Kayakapi Premium Caves – o primeiro e único hotel boutique da Capadócia, que une uma estrutura histórica com muito conforto e glamour. Em sua estrutura, constam quartos bem equipados, spa, academia e piscina com vista para a cidade, entre outros. Já ouviu falar em “banho turco” (o Hamam)? Variante do Oriente Médio de um banho de vapor (parente úmido da sauna), ele pode ser desfrutado no hotel.

A comida também merece destaque. Gosta de queijo feta? Tradicionalmente feito com leite de cabra/ovelha, ele pode ser encontrado em quase toda salada que você pede. Aliás, eles comem muita salada, apesar de curtirem bastante carne (com exceção de porco, que nem existe na Turquia). Adoram mel e adicionam colheradas generosas no café da manhã. Mas, o que pirei foi com o suco de romã, que é tão caro no Brasil e lá fazem copos enormes por cinco euros.

No hotel, ganhei uma placa. Ali, no local em que fiquei tem o nome de quem já morou. É emocionante pensar que famílias foram “construídas” junto com as casas. Antigamente, eles tinham o costume de ampliar os espaços (escavar novos cômodos) conforme a família crescia. Quando um filho casava, então, fechava-se uma parede da casa para continuar do outro lado – iniciando a nova família.

A hospedagem até que ficou barata, pois a libra turca vale a pena: faça o câmbio e pague com ela. Agora, antes de partir da Capadócia, aproveite para desbravar as fábricas de cerâmica. Dizem que antigamente para casar nessa região era preciso fazer uma peça muito difícil, que seria a prova de que você estava preparado para o matrimônio. Minha filha até brincou ao participar de uma atividade para construir uma peça.

Sem dúvidas, vale a pena conhecer a Capadócia – cujo tempo continuará a alterar suas formas e extensos esforços de preservação buscam garantir que os encantos de Göreme sobrevivam por mais um milênio.

Sou Willians Mischur. Brasileiro, esposo, pai, empresário, fotógrafo, coach, aficionado por viagens e um eterno sonhador.

Entre um voo e outro, vem comigo! Próxima parada: Istambul

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